Golfo do México, ano de 1520

O grande animal caminhava sorrateiramente por entre as árvores; sua pelagem amarelo-dourada reluzindo contra o luar. Com passadas suaves e firmes, confundia-se com a alta vegetação, deslizando numa cadência marcada pelos movimentos oscilantes de sua longa cauda. O animal era de compleição robusta, dotado de grande força muscular, sendo a potência de sua mordida considerada a maior dentre todos os felinos do mundo. Possuía cerca de dois metros de comprimento, pesando em torno de 120 quilos. Parou por um segundo, farejando o ar. Aguçou os ouvidos, atento ao menor som. Farejou novamente, percebendo que alguém se aproximava. Com extrema agilidade, o grande animal saltou em direção às arvores próximas. Em segundos, o jaguar, o maior felino das Américas, misturava-se em meio às folhas, desaparecendo na copa das árvores. Estreitando os olhos amarelados, ficou à espreita, aguardando com tensão.
_ Traz má sorte deixar o navio durante a noite... _ a voz, um tanto esganiçada, juntou-se ao sussurro do vento noturno.

_ Ora, cale essa boca! _ exclamou, ríspido, o homem que, de tão magro, era chamado pelos companheiros de “Caniço”. _ Para você tudo traz má sorte!
_ Ah, e me diz se isso não é verdade? _ insistiu o outro que, devido à sua exagerada robustez abdominal, possuía a alcunha de “Barrica”. _ Enquanto nós estamos aqui, arriscando nossas vidas em busca de água e madeira, o resto da tripulação está tranqüilamente descansando a bordo do “Salamandra”! Diga-me se isso não é má sorte nossa?  Somos todos azarados e eu mais ainda, porque nasci sob os auspícios de uma estrela má!
_ Dai-me paciência! _ Caniço ergueu uma das mãos para o alto, enquanto segurava com a outra mão a lanterna acesa, procurando iluminar o caminho.
Barrica continuou choramingando sua falta de sorte, carregando o pesado machado de um gume sobre o ombro. Ao todo eram dezesseis homens, caminhando em fila, em boa ordem. À frente caminhava seu líder, o capitão corsário Jean Fleury, francês de aparência esguia e feições trigueiras. Vestia um longo casaco carmim, de grandes botões, e sobre a cabeça portava com altivez um surrado chapéu de couro, símbolo de sua autoridade a bordo. Na cintura, presa em seu largo cinto, levava sua inseparável pistola de cabo enfeitado com valiosos detalhes em madrepérola que, vez por outra, ele tocava, como a verificar se ela continuava por ali mesmo. Numa atitude destemida, mantinha a espada embainhada, limitando-se apenas a carregar, em uma das mãos, a lanterna que trouxera de seu navio. Era seguido de perto por seu piloto, o turco Ahmed, homem de compleição avantajada, de músculos bem definidos e forte como um touro. O impressionante gigante turco carregava uma grande espada curva que, diferentemente de seu capitão, mantinha fora da bainha, pronta para entrar em ação. Quanto ao contramestre do navio, esse havia morrido, junto com uma dezena de marinheiros, pela manhã e o capitão Jean Fleury não tivera tempo, ou não quisera, nomear um novo. Assim sendo, depois da frustrada e sangrenta tentativa de conseguir água fresca e madeira para reparos, feita à luz do sol, o capitão resolvera que era hora de experimentar novamente sua sorte, desta feita, debaixo dos olhos da grande lua cheia. Haviam desembarcado em dois betéis, deixados junto à praia, sob a guarda de dois homens armados até os dentes.