Arredores da cidade de El Mansurá, Egito, 1264

Camelos. Um bom e robusto camelo percorre cerca de trinta a quarenta quilômetros por dia, conduzindo uma carga de duzentos e cinqüenta quilos. No verão pode passar de dois a três dias sem água e um ou dois dias sem alimento algum. Já no inverno pode suportar até por oito dias a falta de água e não se alimentar por quatro dias. Animais ideais para percorrer longas distâncias no deserto. Ideais para caravanas. Abdul sabia de tudo isso na prática. Crescera acompanhando caravanas através do Egito, da Palestina e da Síria. Na manhã seguinte, bem cedo, partiria em mais uma, levando um carregamento de algodão para a corte do sultão. Sua função era cuidar do bem-estar dos camelos da caravana e era isso que fazia agora, fornecendo o último suprimento de água e comida antes da partida no dia seguinte.
Aproveitava as últimas luzes do dia para alimentar os animais. Não era bom fazer isso quando a noite caísse, pois os camelos eram animais temperamentais e se assustavam à toa.
Lembrou-se de uma vez, a caminho do Cairo, quando o camelo que puxava a caravana assustou-se com uma lebre e embarafustou pelo deserto afora, sendo seguido pelos outros em debandada. Até hoje o avarento Mustafá, dono dos animais, planteia seu amargo prejuízo enquanto arranca fios de sua barba. Recebera a devida paga por sua mesquinhez conquanto, para recuperar seu prejuízo, se tornasse ainda mais avarento. Abdul olhou para o horizonte que se avermelhava. A última luz do sol se extinguia e ele precisava se apressar. Estava quase na hora da oração da noite e ele ainda não fizera suas abluções. Após certificar-se de que tudo estava bem com os animais, dirigiu-se para onde estavam acampados seus companheiros de viagem que já se lavavam preparando-se para, voltados em direção a Meca, iniciarem a última oração do dia. A lei do Profeta ordenava que o rosto, os braços, até os cotovelos, as mãos e os pés fossem diligentemente limpos antes de se prostrar em oração. Abdul aproximou-se do tanque e mergulhou os braços na água límpida sentindo-a fria e agradável.