Sinto frio. Muito frio. São quase onze horas de uma escura e fria noite de inverno. Estou sentado sobre um velho e apodrecido tronco de árvore e estou só. Diante de mim, uma pequena e heróica fogueira resiste à força do vento, espalhando pelo ar, em ziguezague, crepitantes cinzas, como vaga-lumes ardentes e avermelhados, que morrem na escuridão da noite. Me encolho, procurando aquecer minhas mãos, observando o céu coalhado de pequeninas estrelas. Nesse momento, o sentimento de melancolia que sempre me acompanhou durante toda a minha vida, parece aumentar. Ao longe posso ver o magnífico e imponente Monte Teleno , com seus mais de dois mil metros e com o cume coberto de neve, dominando toda a paisagem. Aos meus olhos cansados e sonolentos, ansiosos pelo irreal, o monte se assemelha a um gigante adormecido, esparramado pelo campo, alheio ao que se passa nos corações dos insignificantes e minúsculos mortais. Penso em meu país e em todas as pessoas que amo que deixei por lá. O que estariam fazendo? Que curso o rio sinuoso de suas vidas estaria seguindo? Quantas alegrias e tristezas teriam vivido desde que deixei seu convívio? Está próximo de completar um ano desde que os deixei para trás. Desde então, vivi muitas vidas e, perscrutando o meu coração, quase não me reconheço. Quem é você, Jean Angelles ? Quem realmente é você? E o que faz você, sozinho, no alto de uma colina na Espanha, tremendo de frio? O que aguarda? O que espera? Embora eu saiba que, hoje, finalmente, eu vou ter o meu tão aguardado e dolorosamente buscado encontro, sinto meu coração pesado e estranhamente inquieto. Talvez eu tenha medo de me sentir como aquele amante que, depois do tão almejado orgasmo, se sente, ao invés de satisfeito e realizado, vazio, roubado de sua força vital. Talvez seja isso mesmo. Talvez eu tenha medo da realização de meus sonhos. Medo de sentir-me vazio depois disso. “Cuidado com o que desejas porque podes vir a alcançar”. E Eu tive que lutar muito para alcançar esse momento. Por vezes, pareceu-me inatingível e, em outras vezes, esteve tão perto que quase pude tocá-lo com as pontas dos dedos. Mas, sempre houve o “quase”. O frustrante sentimento de estar tão próximo de alcançar um objetivo há muito almejado e vê-lo esvair-se, escapar como um coelho assustado, desaparecendo em alguma toca escura e úmida. O recomeçar sempre é mais difícil do que o começar. Por diversas ocasiões, muitas mais do que gostaria, eu tive de recomeçar. Buscar forças no profundo de minha alma para combater o desalentador sentimento de fracasso. Foram momentos muito difíceis e sofridos, em que desistir seria aconchegante e muito fácil, mas eu sabia que o único caminho que existia era seguir em frente. Havia queimado todas as minhas pontes. Não havia rota de fuga ou plano “b”. Não havia como voltar. Teria de seguir meu caminho, viver minha odisséia pessoal e encontrar o meu Graal . Ninguém poderia fazê-lo por mim e, caso eu desistisse, sabia que não poderia mais me olhar em um espelho de cabeça erguida. “O covarde morre mil vezes. O herói apenas uma”. Era o que se dizia na Ordo Templis . Um cavaleiro pode tombar, todavia, jamais abandona a batalha. E eu estive por duas vezes perto de tombar, ambas em Tanger, no Marrocos. E, em uma das ocasiões, quase perco minha alma imortal. Olhando para trás, aqui na colina batida pelo vento frio, um sentimento de estranheza percorre meu peito. Teria sido eu mesmo? Teria sido eu a viver o que vivi? Ou teria sido um espírito, um fantasma, que se apoderou de meu corpo e que, puxando as cordas de minha existência, meu conduziu por um destino incerto tal qual uma marionete? Olhando para a pequena e teimosa fogueira, busco em suas chamas rubras e azuis o meu nome... Na madeira que queima e estala, ouço um sussurro e não me reconheço. Teria eu vivido tudo aquilo mesmo? As lembranças que pouco a pouco preenchem meu coração seriam mesmo minhas? Encolho-me mais ainda, sentindo o peso de meu passado sobre as minhas costas, enquanto fixo as chamas que lambem as folhas e os gravetos secos. Tudo que vem à minha mente é o vermelho... o vermelho . E sinto-me invadido, preenchido e inundado pelas minhas recordações. Meu olhar fixo observa as chamas crescendo, crescendo, espalhando-se até envolverem todo o meu ser...